A falta constante de água em alguns bairros de Divinópolis tem trazido dor de cabeça para muita gente. Ontem, 14 bairros da região noroeste da cidade ficaram sem abastecimento. A companhia responsável informou que o abastecimento tinha sido interrompido em virtude de uma manutenção emergencial na rede de distribuição. Notícias assim estão cada vez mais frequentes para moradores de todo o município.

Responsável por abastecer 90% das residências de Divinópolis, a principal fonte ‘precisa’ respirar. Quem passa perto do Rio Itapecerica, precisamente na Praça Candidés, entre a ponte que divide o Centro e o bairro Niterói, já observou que a quantidade de água corrente tem diminuído a cada dia. Para se ter uma noção, a última vez que choveu na cidade foi há 56 dias, em 14 de junho, quando o acumulado ficou em apenas 6,4 milímetros.

A Copasa, Companhia de Saneamento de Minas Gerais, responsável pelo abastecimento de Divinópolis disse à reportagem, em nota encaminhada, “que os mananciais responsáveis pelo abastecimento de Divinópolis apresentam vazão normal para esta época do ano apresentando nível de captação melhor que no mesmo período de 2016 e, nesse momento, não apresenta risco de desabastecimento”, disse o órgão.

ÁGUAS DE DIVINÓPOLIS

O rio nasce na zona rural de Itapecerica e percorre uma longa jornada até chegar em Divinópolis. Dentro do perímetro urbano, o rio corta aproximadamente 18 quilômetros. Em pelo menos quatro quilômetros do curso d’água, é possível observar o crescimento de plantas já conhecidas: os aguapés. Recentemente, a Prefeitura de Divinópolis retirou as plantas que estavam quase formando o efeito ‘tapete’.

Porém, mais uma vez, lá estão eles de volta. O aguapé funciona como um indicador dos níveis de poluição das águas. “O alimento do aguapé é justamente a matéria orgânica jogada na água, ou seja, o esgoto. Quando a água tem pouco esgoto, o aguapé não prolifera, porque ele não tem alimento suficiente para manter sua sustentação e a sua reprodução. O aguapé, independente do seu processo ou do meio ao qual está inserido, ou seja, pode estar tanto no verão quanto no inverno, ele irá se nutrir dessa poluição”, explicou o biólogo Claudemir Cunha.

As plantas removidas pela prefeitura ao longo do primeiro semestre secaram nas pedras. Em alguns pontos do rio, principalmente próximo ao Parque da Ilha é possível observar um pequeno efeito tapete. Ao lado, bastante sujeira e restos de materiais plásticos. Se não bastasse a pouca água corrente, a poluição marca presença. “Há uma diminuição no fluxo de água que estabelece o leito do rio, fazendo com que esse continue recebendo a mesma carga elevada de esgoto que ali é despejada. Com a diminuição do volume de água e essa carga de esgoto constante, isso mostra que há uma elevação do elemento poluidor que se dá nesse ambiente, ao qual chamamos de eutrofização, ou seja, a carga de esgoto sem tratamento que é jogada no rio faz com que o mesmo sofra um impacto ambiental negativo, de proporção de grande espectro”.

Rio Itapecerica em alta durante o verão de 2016, quando choveu acima da média (FOTO: Luiz Felipe Enes)

POLUÍDAS PELO ESGOTO

Morador do bairro Alto São Vicente, Diego Rocha Lopes trabalha na área contábil. Ele mora relativamente longe do rio, mas os problemas com a escassez são sentidos diariamente. “Quase todo dia está faltando água aqui. A gente liga na Copasa, reclama, eles falam que vão resolver, a água volta e fica todo dia nesse vai e volta. Eu acho que a gente tá sendo enganado, sabe? Devem estar mentindo falando que todo dia tem adutora ou sei lá o que para arrumar. Isso, pra mim, é desculpa para não falar que estão racionando água aqui em Divinópolis. Mas nem o esgoto que a gente paga a taxa tá sendo tratado”, disse revoltado o contador. 

IMPACTO AMBIENTAL

As consequências em despejar esgoto sem tratamento adequado são sentidas especialmente pelos animais que vivem no entorno da água. Todo um ecossistema vive e depende do rio. O biólogo Claudemir Cunha explicou que níveis altos de poluição impedem a reprodução de peixes. O alimento favorito dos peixes são as larvas de mosquitos, como do aedes aegypti, por exemplo, principal vetor de três doenças bem conhecidas, a dengue, zika e chicungunya, como explica o biólogo, Claudemir Cunha.

“Se formos analisar em caráter de elementos poluentes, a gente observa que nos últimos cinco anos, a quantidade de poluentes que rio vem sofrendo, está aumentando. Isso faz com que atinja toda uma cadeia e seu ciclo trófico, dentro de determinados níveis. Exemplo, quando o peixe morre por falta de oxigenação na água, o alevino – filhote do peixe, ele se alimenta principalmente de deposição de ovos que certos mosquitos deixam na água. Ou seja, dengue, zika, chicungunya, que atinge grande parte da saúde pública, não só o cuidado que as pessoas tem em casa, mas se não tiver um predador natural, há uma proliferação natural desses insetos”.

Outro ponto importante da discussão está relacionado ao tratamento da água. Cerca de 10% do abastecimento da cidade vem do rio Pará e o restante, do Itapecerica. O biólogo ainda disse à reportagem que quanto mais poluído o rio estiver, maiores serão os componentes químicos utilizados no tratamento. “Quanto mais poluído o rio ficar, mais produto químico vai ser utilizado no tratamento da água. Isso também reflete em outro fator, que da seguinte maneira, a população divinopolitana, ao longo desses cinco anos, não está diminuindo, está aumentando. E a única fonte de abastecimento principal é o Itapecerica. Isso se torna um fator agravante, que precisa de uma atenção especial, pois sem água, não há vida”, informou Claudemir.

NÍVEL DOS RESERVATÓRIOS

Além de acumular água, eles também geram energia. A reportagem do Jornal Gazeta do Oeste procurou a Companhia Energética de Minas Gerais, a Cemig. Em nota encaminhada, o órgão informou que Usina de Carmo do Cajuru está parada e apenas com 30% da capacidade. A Cemig ainda explicou que a vazão da água liberada pelo reservatório é de 4,4 m³/s. “A vazão afluente drenada pelo rio Pará (quantidade de água que chega ao reservatório) é de cerca de 3,5 m³/s, logo, o reservatório está sendo utilizado para manutenção da vazão de jusante. Importante lembrar que a usina está com sua unidade geradora parada, pois a quantidade de água que a unidade geradora engole para gerar sua capacidade mínima equivale a um valor muito superior aos 4,4 m³/s, que faria com que o reservatório não suportasse até o início do período chuvoso caso praticássemos este valor defluente”, disse a companhia em nota.

Mesmo sem funcionar, a Cemig disse à reportagem que não há influências na geração de energia. “Contudo, o fato da unidade geradora estar parada não compromete o suprimento energético da região, visto que o sistema elétrico nacional é interligado e aquilo que não for gerado em Cajuru, é gerado em outras usinas. Cabe ainda lembrar que logo depois da usina de Cajuru, temos a usina de Gafanhoto, que hoje está gerando 300 kW. Quanto ao armazenamento de Gafanhoto, ele não é relevante para fins de estoque de água, pois opera em regime fio d’água, ou seja, toda quantidade de água que chega é liberada, uma vez que a responsabilidade de estocar água compete à Cajuru”, alegou a Cemig.

cerca do Rio Itapecerica, a Cemig informou ao Jornal Gazeta do Oeste que a vazão está em 4,5 m³/s. Já a Copasa, disse em nota encaminhada que “Em julho de 2017, o volume médio tratado de água na Estação de Tratamento (ETA) do rio Itapecerica foi da ordem de 534,6 litros por segundo. No mesmo período do ano passado, o volume tratado foi de 529,1 litros por segundo”, disse a companhia de abastecimento de água. A reportagem ainda perguntou ao biólogo qual seria a solução para resolver o problema da poluição no Rio Itapecerica.

“Dentro dos processos de biotecnologia que envolve solução de impactos ambientais negativos em meio aquoso, não existe, atualmente no mundo, um sistema de tecnologia eficaz que possa ser aplicado no nosso meio, onde estabelece um resultado a curto prazo. A tendência dos índices de poluição é ir aumentando, até chegar um determinado processo em que a sua água vai se tornar impotável, ou seja, na linguagem popular, o rio vai morrer, porque ele não vai oferecer condições de vida. O tratamento de esgoto é a solução para salvar o Rio Itapecerica”, finalizou Claudemir Cunha.

Aguapés crescem a cada dia na parte de baixo do rio, ao lado do Parque da Ilha (FOTO: Luiz Felipe Enes) Fonte : G37